Amor de Mães
A atriz Mariana Elisabetsky sempre quis engravidar.
A cenógrafa Paula Izzo nunca havia namorado mulheres. Conheceram-se,
apaixonaram-se e decidiram ser mães, recorrendo a um doador de sêmen.
Aqui as duas contam o início e o meio de uma história com final feliz.
Nosso primeiro jantar já estava marcodo para a noite de domingo, 12 de 2008
(Estreia do Sítio do Picapau Amarelo)
Já havia ganhado a personagem de "Emília" foi o meu maior presente na minha carreira de atriz,
mas não sabia que ia ganhar um amor tão rápido, muito mais que isso uma mamãe para os meus futuros filhos.
A história
Eu estava a 1 mê ensaiando a peça "Sítio do Picapau Amarelo" quando uma bela mulher entrou pela porta com um monte de papéis na mão. Era a cenográfica que ia transformar aquele palco vazio.
Fingir ouvir as suas explicações, mas, ao fim da reunião, não tinha a menor vaga de como ia ser o cenário: meu foco era outro.
Daí em diante, ela aparecia nos ensaios de vez em quando. Eu fazia as cenas e olhava pra ela: queria ver se conseguia fazê-la rir, chamar a sua atenção. Mas ela não parecia dar muita bola.
- Era uma trabalho daqueles de virar a noite. Já fazia um ano que eu só trabalhava. Estava exausta. Mas uma história de amor recém-terminada tinha me despedaçado de tal forma que acreditei que o melhor a fazer mesmo era mergulha a cara no trabalho. Apesar do ritmo intenso e do coração partido, algo me fazia rir: Emília. Ou melhor, a atriz que dava vida a ela. Mariana era talentosa e encantadora. Acabou virando uma amiga. Tanto que preparei um presente especial para dar a ela na estreia: uma bonequinha de pano feita por mim.
Paula Izzo
O primeiro encontro
O tão esperado domingo chegou. Não sabia se estava nervosa pela estreia em si ou pelo jantar que havia combinado com a Paulinha depois. Antes do espetáculo, ganhei um lindo presente: uma boneca de pano de sua marca, a Mondopanno.
Quando as cortinas se abriram eu estava em êxtase. Mas o destino me passou a perna - literalmente! Quebrei o pé numa das últimas cenas do espetáculo. Cheguei até o fim, e a plateia nem percebeu, mas o jantar foi substituído por algumas horas no hospital para engessar o pé esquerdo fraturado.
Tive que esperar mais 3 dias para um momento a sós com ela. marcamos de assistir Fuerza Bruta .
A verdade e que foi um encontro meio atrapalhado, estava de muletas e tinha muita dificuldade de me locomover. Saímos queria saber de tudo sobre e ela e sugerir a ela morrendo de medo de ouvir um "não" chá na minha casa. Fiquei surpresa quando ela aceitou.
- Na véspera da estreia, a caminho do teatro eu tive um insight: entendi finalmente que a Mari queria mais que a minha amizade. Como explicar que não teríamos nada, que eu não namorava meninas, que só queria ser a sua amiga? não jantamos naquele dia por causa do pé dela... mais naquela noite eu não preguei os olhos e de repente, me peguei pensando: Por que não ? Qual o problema de sair com uma mulher ? não sabia mais já estava apaixonada.
Remarcamos o encontro e passei para buscá-la no horário combinado. A beleza e o papo dela foram me distraindo, e o frio na barriga sumiu. O espetáculo foi lindo; o jantar foi delicioso. no fim, veio o convite que me fez tremer novamente. Um chá em sua casa, a vontade de conhecer mais do seu universo me venceu e, antes que eu pudesse pensar, minha boca disse "sim".
Paula Izzo 
O namoro
Paulinha entro na minha vida para ficar. Era tudo tão natural que parecia impossível que ela nunca tinha vivido uma história de amor com uma mulher. Quando a apresentação á minha família, a empatia foi imediata: em minutos ela já era parte daquele núcleo.
tudo aconteceu de uma forma tão espontânea que não hesitei em compartilhar o meu maior sonho: ter um filho. Nunca havia me imaginado casando de branco, mas sempre me imaginei mãe.
- Diferente do que eu havia pensado, meu primeiro encontro com uma mulher foi bem mais fácil que muitos primeiros encontros com homens. Acho que é uma questão de identificação. É engraçado que depois que você aperta um botão na sua cabeça e se liberta de certos preconceitos, tudo flui. quando eu estava começando a contar aos meus amigos que estava namorando um mulher, ela revelou seu desejo de ter um filho. Muitos homens que eu conheço teriam pulado fora. Eu não. Só que fui pega de surpresa. Nos conhecíamos há tão pouco tempo ...
Paula Izzo
A decisão de engravidar
- Confesso que, ao dividir minha vontade com ela, queria escultar "é meu sonho também, vamos fazer isso juntas!". Mas estávamos namorando havia apenas um mês, era um absurdo esperar aquilo dela. O tempo foi passando e eu a cada dia mais apaixonada por ela. Uns três meses depois do nosso primeiro encontro Paulinha me surpreendeu mais uma vez ao dizer : "depois de muito refletir", havia decidido que queria ter esse filho comigo. Seriamos uma família!
Contei para a Paulinha que queria ter um filho com um mês de namoro. Fora 31 injeções de hormônio e duas surpresas: Mia e Gael, um bebê para cada mãe.
Mariana Elisabetsky
O final feliz
- Decidimos que era importante morarmos juntas antes de colocarmos o plano em ação. Quatros meses depois já estávamos dividindo o mesmo teto. O próximo passo foi uma consulta com um especialista em reprodução assistida. O médico nos ganhou no ato. Dissemos que estávamos lá porque queríamos um filho, e ele logo perguntou com a maior naturalidade: "Ótimo! qual das duas vai engravidar ?"
Paula Izzo
- Nunca tivemos dúvidas de quem geraria a criança era a Mari, já que engravidar nunca foi um tema prioritário para mim. O processo de reprodução assistida envolve muita expectativa e uma boa reserva de dinheiro. Para aumentar as chances de sucesso, a Mari teve que tomar 31 injeções de hormônio.
O resultado disso tudo, além do turbilhão emocional, foi a produção de oito embriões frutos da combinação dos óvulos da Mari com o sêmen de um doador anônimo. Escolher a outra metade do material genético do seu filho escrevendo "x" numa ficha impessoal é esquisito, mas necessário. Decidimos por uma pessoa com características físicas e cultural parecidas com as nossas.
- O processo todo foi puxado , com direito a enjoos e indisposições, mas não poderíamos reclamar. Em março de 2010, 12 dias depois de colocarmos dois embriões no útero da Mari, veio resultado do exame de sangue: estávamos grávidas!
- O primeiro ultrassom mostrou um bebê do tamanho do grão de arroz, com o coraçãozinho já batendo . É uma emoção difícil de descrever. Voltamos dez dias depois para mais exames, e o médico disse: "Era um bebê ? Pois agora são dois!" Diante da nossa surpresa, ele explicou que ás vezes dois fetos podem amadurecer em tempos diferentes.
Ficamos em um de choque. Era uma mistura de alegria, medo, surpresa, insegurança. chorávamos juntas por cerca de duas horas. Semanas depois, descobrimos que se tratava de um casal, Mia e Gael. Enquanto nos preparávamos para a chegada deles, descobrimos que Paulinha poderia amamentar por meio de um preparo semelhante ao que algumas mulheres fazem para dar mamar aos seus bebês adotivos.
Não imaginava que isso seria possível e foi uma das experiências mais incríveis da minha vida”, diz Paula, visivelmente emocionada
Paula Izzo
A rotina, como de qualquer família de gêmeos, é insana. Os bebês são alimentados exclusivamente com o leite materno, o que faz com que Mariana fique acordada boa parte do tempo, mas a felicidade, beleza e delicadeza dos seus gestos e o charme das sardas não dão espaço para as olheiras. Na divisão de tarefa, à Paula, com seu ar de menina mignon, sutil e de fala suave, cabe atender aos outros chamados como manhas e troca de fraldas.
Donas de uma casa de boneca, com direito a quintal, rede, flores e hortaliças, Paula, Mariana, Gael e Mia formam o retrato de uma família moderna visivelmente feliz. Mas elas sabem que, infelizmente, fazem parte do quadro de exceções dentro de um universo ainda marcado pelo preconceito. Comemoram a decisão do Supremo Tribunal Federal de validar a união civil entre pessoas do mesmo sexo e pretendem usar esse direito, mas sabem que ainda existe um longo caminho pela frente: “O Gael e a Mia estão registrados apenas como meus filhos, como seu eu fosse mãe solteira. Eles têm o sobrenome da Paula, mas só porque o cartório entendeu como se fosse um segundo nome das crianças. Pela lei, a Paula não tem qualquer relação com eles”
Mariana Elisabetsky 
E a maneira de Paula e Mariana de contribuir para essa “causa” é dando a cara para bater e falando, sempre, a verdade. Aos filhos contarão a história exatamente como foi. Na rua, quando são indagadas com a pergunta: “De quem são esses bebês tão lindos?”, respondem “das duas”, e não se furtam aos convites de revistas, jornais, debates e programas de TV. Afinal de contas, Paula e Mariana sabem que mais do que uma história incomum, elas têm uma grande história de amor para contar.